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Como um linguista negro dos EUA registrou terreiros baianos nos anos 1940

Povo de axé retratado por Lorenzo Dow Turner na Bahia dos anos 1940 - Divulgação
Povo de axé retratado por Lorenzo Dow Turner na Bahia dos anos 1940 Imagem: Divulgação

João Vieira

Colaboração para o TAB

10/09/2020 04h01

Religião de matriz africana praticada por 0,3% da população brasileira, segundo o Censo de 2010 do IBGE, o candomblé se tornou, com o ar dos anos, uma manifestação cultural de ancestralidade e resistência da comunidade negra. Ele é uma das principais formas de afirmação e representatividade dessa população na diáspora africana.

Foi o candomblé e sua prática em milhares de terreiros espalhados por Salvador uma das razões que causaram instantânea identificação entre a Bahia, o Brasil e artistas de origem estrangeira, que chegaram por aqui e nunca mais foram embora, como o fotógrafo e etnólogo franco-brasileiro Pierre Verger, estudioso do tema, e o ilustrador, historiador e jornalista Hector Julio Páride Bernabó, o Carybé, nascido em Buenos Aires e naturalizado brasileiro, residente no Brasil de 1949 até 1997, quando faleceu.

Às suas maneiras, Verger e Carybé se tornaram duas das mais conhecidas vertentes da documentação histórica do candomblé em solo brasileiro. Mas ainda faltava a identificação racial e o senso de pertencimento em ver esse ado retratado por um olhar preto.

Aquarela "Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia", de Carybé  - Facebook/Reprodução - Facebook/Reprodução
Aquarela "Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia", de Carybé
Imagem: Facebook/Reprodução

Perdidas no meio de tantas obras de pesquisa e retratação histórica da Bahia estavam as gravações de Lorenzo Dow Turner, acadêmico e linguista norte-americano, que, entre 1940 e 1941, retratou, por registros em áudio e fotografia, a vida em terreiros de Salvador e do Recôncavo baiano.

Após décadas de existência praticamente oculta, o trabalho de Lorenzo finalmente ganhou a vida que merecia no projeto "Memórias Afro-Atlânticas", documentário que integra a programação do festival internacional de documentário musical In-Edit, que acontece online, entre 9 e 20 de setembro.

O acervo foi encontrado pelo professor, antropólogo, etnomusicólogo e pesquisador Xavier Vatin, durante uma pesquisa de pós-doutorado de 18 meses nos Archives of Traditional Music da Indiana University, em Bloomington, nos Estados Unidos, em 2012. "Ouvir as gravações originais foi um choque emocional e intelectual muito grande, que me levou imediatamente a vislumbrar a possibilidade de repatriar esse acervo para restituí-lo a seus legítimos detentores e herdeiros do povo de santo da Bahia e do Brasil", explica ele, em entrevista ao TAB.

Esse processo durou cinco anos e contou com apoio de Cassio Nobre, coordenador e idealizador de Memórias Afro-Atlânticas, a partir de sua produtora, Couraça Criações Culturais. Para transformar a iniciativa em um filme documental, Cassio convidou a cineasta Gabriela Barreto, conhecida na cena audiovisual baiana por retratar, através do cinema, as artes relacionadas ao povo afro.

Reconexão e ancestralidade

A chegada das gravações de Turner aos terreiros provocou emoção. Personalidades marcantes do candomblé, como Joãozinho da Gomeia, Mãe Menininha do Gantois, Martiniano e Manoel Falefá foram rapidamente identificadas por seus filhos, de sangue e de santo.

"No set de filmagem, a partir do momento que a gente apresenta a eles, aos filhos, às mães de santo, os ogãs, que estavam ali, tendo o às fotografias e aos áudios gravados por Lorenzo, percebemos o quanto mexeu com a memória afetiva dessa nova geração", explica Gabriela.

O acadêmico e linguista norte-americano Lorenzo Dow Turner - Divulgação - Divulgação
O acadêmico e linguista norte-americano Lorenzo Dow Turner
Imagem: Divulgação

A diferença do olhar negro

Nascido em Elizabeth City, na Carolina do Norte, Lorenzo Dow Turner tem a descoberta dos elementos de conexão ancestral da diáspora com África como um dos orientadores do seu trabalho de pesquisador e linguista. Foi ele que, através de estudos realizados no chamado Low Country dos Estados Unidos, região da Carolina do Sul, descobriu afro-americanos que falavam a língua Gullah, idioma considerado uma variação do inglês e com origem étnica em regiões da África Ocidental e Central.

Na Bahia, além de documentar terreiros de candomblé, Turner também trabalhou registrando outros elementos da cultura afro-brasileira, como a capoeira. "Ele também gravou Mestre Bimba da Capoeira, que virá no próximo filme que estamos fazendo, importante porque Mestre Bimba foi criador de vários tipos de toque da capoeira, e ele [Lorenzo] deixou isso tudo registrado", diz Gabriela.

Em destaque, Mãe Menininha, retratada por Lorenzo Dow Turner - Divulgação - Divulgação
Em destaque, Mãe Menininha, retratada por Lorenzo Dow Turner
Imagem: Divulgação

"Certamente, o fato de Turner ser um pesquisador negro permitiu que ele tivesse o ampliado ao cotidiano dos terreiros de candomblé que ele visitou e com que conviveu durante sua estadia no Brasil." A fala de Cassio Nobre registra o principal e mais influente elemento do trabalho de Lorenzo em comparação a outros artistas que documentaram terreiros de candomblé. A negritude identificada com os integrantes desses locais e o amplo conhecimento de características identitárias tornaram o trabalho do linguista ainda mais documental, o que, nos dias de hoje, facilita a identificação das novas gerações desses terreiros com seu ado.

"A fotografia de Pierre Verger é uma fotografia esteticamente bela, diferente da fotografia do Lorenzo Turner, que é mais documental. É essa intimidade do documental que faz a grande diferença, em relação a formato e estética. Por ele ser um homem negro, ele criou essa intimidade que já é ancestral, e as pessoas se sentiram seguras, realmente", opina Gabriela.

Para Xavier Vatin, Lorenzo, assim como outros artistas estrangeiros, fascinou-se ao ver o tamanho da contribuição africana, ainda que forçada, na formação cultural e social do Brasil. "Verger, Carybé, Turner, Ruth Landes, Melville Herskovits, Roger Bastide, E. Franklin Frazier, no século 20, têm retratado e estudado essa Bahia negra e mística sob diversos ângulos: artístico, antropológico, sociológico. Esse fascínio exercido pela Bahia e pela negritude no Brasil mostra o quanto a África continua viva deste lado do Atlântico. Na realidade que o Brasil vive, mostrar para a sociedade a importância do legado africano, negro, afro-indígena é cada dia mais premente", opina ele.

Estar diante de registros tão valiosos trouxe maior proximidade de Gabriela, que é uma mulher negra, com as religiões de matriz africana, ainda que ela não seja do axé. "O documentário abriu minha mente. O respeito com a ancestralidade, a busca, o respeito com o silêncio, o respeito com o toque do atabaque, com a entidade, com o próximo, com as línguas...", diz ela.

A cineasta Gabriela Barreto, diretora do documentário 'Memórias Afro-Atlânticas' - Divulgação - Divulgação
A cineasta Gabriela Barreto, diretora do documentário 'Memórias Afro-Atlânticas'
Imagem: Divulgação

Memórias Afro-Atlânticas no In-Edit
O documentário "Memórias Afro-Atlânticas", que mostra o encontro de terreiros de axé de Salvador e do Recôncavo com as gravações de Lorenzo Dow Turner, estreia no festival In-Edit nesta quinta-feira (10), com primeira exibição a partir das 12h. O filme estará disponível para o na plataforma da festival até 23h59 do dia 20 de setembro, com ingressos no valor de R$ 3. Além disso, a plataforma digital do Sesc exibe o documentário gratuitamente a partir do dia 16 de setembro, às 18h, ficando disponível até o dia 18, também às 18h.